Pai

É a noite que cose todos os bolsos do paletó, são breves
discursos sobre a indiferença, o programático à-vontade com que geralmente
trato dele, a quem não ouço em poesia ou pugilato, não o ouço.
Descrevê-lo, talvez, como um poço no centro da praça, o
oposto ao Monumento, & aviões
penduricalhos no céu

(fevereiro, 2011)

Conto o mundo trancado. Por dias

posso dar voltas à homilia, procurando
lugar para estacionar, uma cunha
não mais que a Graça, uma lição a coar
por aqui (perto). Repetitivo, não
há muito enduro em mim, o passaporte
é cabaço & retorce pelas respectivas
vias. Agora que nossas ausências começam
a tomar impulso. Dá um leve desando
dos labirintos, me apoio na poltrona,
em três ou quatro símbolos com pressa
de desbotar. Estava tudo bem
contanto que não se movesse

(meados de 2010 — fevereiro de 2011)

Ação de Graça

Há infusões muito mais certeiras
contra o primado da mente
,
disse-me a moça ao telefone,
Muito mais
que rumorinho de cascata cantares
de baleia eias eias de pajé
pau-de-chuva por favor
não tente bancar o Aventureiro Solitário.
O convênio se exime de toda & qualquer responsabilidade

(julho, 2010)

As Guardas

Nunca pensei que fosse ouvi-lo falar dos riscos.
Sopesasse um canto escuro do palco, as coxias,
o que
pretenderemos com o velho piano da casa?
Agora, a coisa feita, não me parte nada. Calharia
uma nudez mais fantasiosa, verde ’22; envios
ao beach xamanismo de ’71? Disse a Bia
melhor que todos, “crianças comportadas”.
Assento o queixo no cabo do guarda-chuva, atento
a uns estalos disfóricos atrás da arquibancada. Tradição.

(maio, 2010)

Ele Pensa em Fazer a Cama

quantas gerações que pulam, a
ventura, grupamento de
Recursos, cessarfluxo, um sem
número de recém
planetas à montra
duma Sony Trinitron. Quer
-nos parecer que tornamos ao
platô de lançamento, agora com cães
que flautam, vizinhos que vivem
de militar contra a perfumaria. Bem
pode ser progresso. Não?
…………………………..Morrerá de fogão?
Morrerá de nó nas tripas, ou quem
sabe, numa manhã de inverno, dão-lhe
nas ventas com uma ponte desabada?
E do que tem se ocupado o ano inteiro
que ainda nem fez a cama?
……………………………….“Já sei!
Fazer a cama!” Acerca
da coisa, cautela, certo (Zeus, o
Ajuntador de Nuvens, aguarda
na Aduana) dizendo
primeiro
compete fazer a cama. Para toda
viagem de ouro, há pé
em fazer a cama. Todos os meus
vizinhos, os teus inclusos, já
fizeram as suas. Por que você não
……..tenta?
Atrasado de novo, ele falha
ao embarque. Enquanto Ela parte; o
mar, lençol badernado

(agosto, 2010)

 

A Bolha Querendo Se Romper

sim, Levi, antologias têm que ver
com flores & não

remotamente. Percevejos
havaianas estações

de metrô, e o que é mais, Levi,

somos todos selvagens. Alguns
falarão sobre a hybris da selvageria

over acarajés no Largo do Machado.
Estes, Deus castigará em bom tempo

aqueles. Os mais polutos sonhos
da democracia nos figuram falando

nossos versos ó
tão cotidianos na televisão

(novembro, 2010)

Ou a Arte

de cair
da mudança, espanar
dos ombros os cristais
de asfalto
& meter pela
multidão, qual
dinossauro de Calvino
inconspícuo, mal &
porcamente lá

(fevereiro, 2011)