O facho do desassossego

Pois é, amigos. Agora estou aqui.

“As if writing a letter to self.”

– Como você acorda?
O primeiro arranco de um corcel da linha 184.
À medida do azul, os pássaros cada vez mais veementes.
Lamenta distante a sirene discoidal.
— E o teu veneno?
Plax.
Sarro de noite sobre os móveis, os poemas.
Mas isto fará ternura depois.
Pôs-se uma estrela no meu olho preguiçoso.
— Você conseguiria descrever esse quarto sem
recorrer a escatologias?
Dificilmente. Havia aqui um objeto de altíssimo relevo,
uma edição de bolso das Confissões de Santo Agostinho.
Conseguia pressenti-la de todos os cantos da casa. Mas
tive que devolver para a Adriana, estava fazendo falta.
— Cantando sempre?
Deus proíba. Os vizinhos se revoltam.
Como poderiam saber (que estou no princípio de algo,
algo que não pode ser vivido em silêncio, algo que
precisa soar enquanto é queda)?
Cantando sempre, sim.
Mas isto fará ternura depois.
— Você está sozinho aí dentro?
Todas as respostas acima.
— Como você acorda?
Ao que parece, estou escrevendo sua biografia.

(maio, 2010)

Get smart, once.

Reckoning

Ilustro, a moça aos fundos
da loja de materiais de construção
— para aceder a ela
precisaremos ganhar um deserto & a naftalina
percebe, então, como as dores de parto
vão fora de sinc…………….Quantos retratos eu tome
ao chafariz da Praça, ou quantas vezes cirande ao
redor deles…………..Serão palavras:
nada lhes avança. Vigas comigo amando
através……………..As mesmas dimensões opacas
que já me quebraram menino, cidade, a intuição
(em bom português) galante
de que não conseguiremos nem à pele

agora vemos a formação (em acelerado) de uma ilha

(março, 2011)

Interrogatório

I.

Quis, em algum momento, escrever bons poemas. Agora me pergunto, para quem? Correr do tal rigor seus campeões, reprocessá-lo à minha. Um esforço de concentração. Entender, tentar entender a narrativa falhada e lacunar que impus ao “Ramerrão” partindo de um só pressuposto: a experiência, sua impropriedade. Martelarei na espessura da linguagem? Tenho apenas sua intuição, é uma intuição obsessiva, mas não inspira nenhum parecer técnico. Sobretudo: nenhum avanço formal, nenhum vapor messiânico. Isto não é uma defesa. Trabalho com categorias dadas. Ocupo um lugar intermediário, um amadorismo francamente assustador, mas ocupo um lugar.

II.

Começo sempre por eliminações. Preciso voltar ao inverno de 2010. Preciso voltar ao inverno de 2010 em mais de um sentido. Era um tempo concentrado, ele todo um esforço de concentração. Preciso voltar àquela madrugada em que assisti a “Paris Nous Appartient”, àquela madrugada fria e (vou me demorar nisso mais tarde) sem ninguém, absolutamente ninguém. Enrolado numa manta, fumava cigarros ao peitoril, um silêncio que nunca ouvi falar. O ponto nodal de qualquer coisa. Fazia café, tornava à poltrona que encaro agora, agora, enquanto escrevo esse texto, saldado todo o romance.

III.

Queixava-me de dores nos quadris em cartas longas e pontuais, grupava níqueis para os cigarros e batidas de gengibre saíam mais barato que cerveja. Desempregado, desempregado há meses, chafurdando. Defendia-me com bicos de tradução, autoajuda, catálogos para mostras de cinema filipino, gender studies. Heringer me emprestou sua máquina de escrever, porque eu já não conseguia lidar com o caráter incorpóreo do que estava fazendo. Tanta fisicalidade, sim, deve pesar uns vinte quilos, Olívia Livetti. Naquele dia choveu um bocado na São Salvador. Abril? Foram as infames chuvas de abril? Durante as infames chuvas de abril, sentei-me à mesa na sala e bati na máquina do Heringer: “Aqui em casa estamos todos muito aplicados em não cair no sono / O rádio dá a Kreutzer e as piores chuvas que se abateram sobre o Rio / desde 1966”.

IV.

Datei tudo. Mais ainda, os meses começaram a se embrenhar pelos poemas, fincam lá como estacas, um tempo determinado, uma categoria dada. Porém, como é o caso em todas as categorias dadas, cabe a nós o que emana delas. Portanto, quando digo “maio”, você está lendo com sua própria voz. Comunica, como um acidente.

V.

Em fevereiro do ano passado, mando uma versão embrionária do “Ramerrão” para minha amiga Fausto. Sua resposta é finalíssima, determinante: são poemas de formação negativos, chamam para si uma intenção de épico baldada no momento em que o “herói” se lança em viagem. Não consigo parar de pensar nisso. Durante meses leio qualquer tradução d’A Odisseia que me chega às mãos, procuro entender cada vez mais as convenções do gênero. Flerto com a ideia de escrever um longo poema memorialístico, metrificado, usando apenas palavras roubadas à revista Cinelândia e às peças do Nelson Rodrigues. Depois, penso melhor (nessa época ainda não tinha escrito os poemas do amigo solteiro).

VI.

Na versão atual, caem os poemas que nomeiam Ulisses e Telêmaco. Quem fica, nomeado, incontornável, é Elpenor.

VII.

“Ramerrão” eram os poemas de escritório. Refiro-me a uma versão ainda mais embrionária, a um projeto que – felizmente – não levei a termo. Refiro-me a 2009, aos nove meses que passei num escritório implacavelmente branco (garagem, fundos, à esquerda) em Botafogo, refiro-me ao julho que passei trabalhando no turno da madrugada, sozinho, numa espécie de estupor beatífico, oficinando para os poderes do Mal. Datam dessa época os versos “meu chefe é Legião” e “as escotilhas se batendo com paisagens irreais”. Ambos foram deixados na mesa de montagem.

VIII.

A histeria do trabalho, sim, o ronco larval da rotina, o ramerrame, a repetição ad idiotia de pequenas compensações: o álcool, o sexo difícil e esparso com velhos conhecidos, as paixões genitoras e inviáveis. Um lento trabalho para a inviabilização. E depois, o silêncio. Preciso voltar ao inverno de 2010, quando comecei a aprontar uma plaquete chamada “O Amigo Solteiro”, preciso voltar a Fausto me dizendo que os poemas novos me resgatavam do niilismo. Todo o meu esforço, naquele momento, era de concentrar. Mais ou menos aí que perdi o humor.

IX.

Pequena consideração sobre o humor: “Synchronoscopio” fez graça porque não tinha contas a pagar. A vida não premia, transitava pelas esferas superiores sem nenhuma vergonha. Portanto, temos um livro que está o tempo inteiro se escusando para ir ao banheiro empoar o nariz. Não me desculpo suas facilidades. Não me desculpo sua evidente vontade de fazer amigos. O “Ramerrão” está para a festa como um convidado amargo que devia ter parado na quarta taça de vinho. Gosto de acreditar.

X.

A imobilidade, o medo, o “branco como agente duplo”, para dizer tanto a loucura como a pureza e por vezes uma confluência entre ambos. Esses pequenos horrores devem dar pátina à experiência doméstica, à experiência do trabalho e à experiência do amor. Creio que são esses os três eixos do livro que terminei há pouco. Quis, em algum momento, escrever poemas que tratassem destes três temas simultaneamente. Não consegui, cedi a outras facilidades. Em minha defesa (isto não é uma defesa), posso dizer que as menções a terras estrangeiras que nunca visitei estão lá por um motivo. A “capital” está lá por um motivo. Estas coisas não são assim tão imediatas, impensadas. Não acredito em escrita automática. É preciso recuperar tudo, mesmo as afetações.

XI.

Sou repetitivo. Mas o livro trata de repetições, o livro trata – mesmo que de través – da incapacidade de ir além do porto. Talvez me arrependa disso em breve, sinta falta de voos mais altos, mas por ora (esse livro, esses últimos dois ou três anos de trabalho) é isso. A verdade é que não sou um homem muito imaginativo. Pego esses elementos da minha vida e tento pô-los numa ordem diversa, uma ordem que me surpreenda a mim mesmo, isso é tudo.

 

Amanhã é Mudança, II

 

mete nas caixas tudo o que sobra e teima
no seu elemento, entre relíquias de trabalhosa significação

julgo estar falando sozinho quando digo como é triste
dar com cadernos antigos e constatar que nada mudou

mas você, numa outra cidade e gigantesco, escuta com acenos
ligeiros da cabeça, talvez o rosto se ilumine pelas pontas

e a ossatura dos armários feita revelação. Performa
o milagre da vacância, moscas laçando de redor,

recordo que até pouco tempo você ainda fazia Jesus
quando os do teu bairro encenavam a Paixão

(abril, 2010)

10 Aproximações, ou Homossexualidade Enquanto Nação

I.

alguém encarna um cartaz, fixa-se a um poste aqui da rua, de onde passa a reclamar (terrível, demiúrgico) um canário belga escapado; asas; remunera-se

II.

pelo coração copado. A rua vai se insulando por mais alguns metros, as árvores levam postas voltas & voltas de bijuteria barata. O brilho estanque que dão, Christmas in my soul, alguma tristeza bambeia dentro de si. Uma tristeza como um camelo

III.

porém, no dia seguinte, o portão estava a ferrolho. Sentou-se na amurada, o cotovelo apoiado sobre a caixa de onde há pouco soltara o cão. Expediam uma ficção magnífica: tinha tempo, não tinha tempo, tinha os móveis de pátio tendendo ao branco sol de janeiro. Quando lhe acontece deitar sobre o canteiro, o corpo vai junto, acende cigarros, recepciona latidos no longo

IV.

o processo da voz: encorpa em torno das mãos, mínguas, ainda tratam de blocos. Mas agora desesperado de (não, as calças de veludo de seu avô jamais abrigaram uma ereção tão malapropos)

V.

ele está de pé contra um muro em Lisboa, os braços ramalhados à altura do peito, durante os quatro minutos que seu irmão levou para voltar da tabacaria sentiu que os olhos se lhe afundavam um pouco mais

VI.

a queda da cristaleira foi um evento notavelmente compacto. Olhava para a cerração de cacos de vidro, trilha branca: o trino da geladeira quando se chega pelos fundos (noite), a ama-motor, zumbindo ártica a um canto da cozinha. Jantara fora aquela noite, em companhia de um HD externo

VII.

mas não devo pensar nestas coisas. A fita já fala, carpimos a máquina morta. Somos leões. Somos estudantes de cinema. Desconhecemos o real sofrimento

VIII.

escreve alguma coisa a quente que ver com essa longa tradição oral, o amor. Como dimensão épica, ou não conseguimos suportar a solidão das coisas, domingo é uma baforada e dedos contusos do pernoite em seu corpo

IX.

o corpo é cidadela conquistada de caminhos largos, fumegantes. Nenhuma alma em seu mais gentil. Bem longe, assina-se a paz

X.

o meu é o trabalho do espanto. O nosso é o trabalho do espanto

(fevereiro de 2011, contendo coisas de muitas épocas)